Publicado por: mirnacavalcanti | 21 de fevereiro de 2016

Machado de Assis, Jadir Araújo e os aposentados do INSS


AnteScriptum

 

Transcrevo abaixo, como recebi (mas com atraso indesculpável, mas aceitável, devido às circunstâncias), artigo interessante e sempre apropriedo, vez que os aposentados pelo RGPS têm sido aviltados por TODOS os governos e, mais ainda, por este que aí está…

Mirna Cavalcanti

Rio de Janeiro, 21 de Fevereiro de 2016

idoso em hospítal.jpg

 

 

Dra. Mirna, é bom tê-la como uma grande defensora dos aposentados do INSS. A recordação da Mirninha, aos 4 anos de idade, junto à tia e avó, Beatriz Josefa, está linda! (v. https://mirnacavalcanti.wordpress.com/2009/04/01/day-by-day/#comment-1964)       Jadir Araújo

Esta É a história de um aposentado do INSS, e um burro, personagem de uma crônica de Machado de Assis.

Sempre que leio, ou ouço falar em reajuste salarial, lembro-me de uma crônica do imortal escritor Machado de Assis, cujo título é: “Um Caso de Burro”. Ela me recorda, sempre que a releio, de um amigo, aposentado do INSS, internado em um hospital. Era em um hospital público, e não no Sírio Libanês, diga-se de passagem.

Da última vez que o visitei, os seus ossos furavam-lhe a pele, os olhos, meio mortos, fechavam-se de quando em quando, só permanecendo abertos por mais tempo, quando ele ouvia minhas respostas às suas perguntas sobre o andamento das reposições salariais dos benefícios pagos pelo INSS; voltando os olhos a se fecharem e abrirem de quando em quando, após ouvir os meus relatos.

Sobre um tosco banquinho de madeira, improvisado por uma enfermeira, ao lado de sua maca, situada em um dos corredores do hospital, pousavam um copo com água, e algumas frutas meio apodrecidas. Trabalhara durante 35 anos para ter, em sua velhice, uma aposentadoria dígna. Enganara-se. Fora ludibriado pelo Governo, logo de início, pela aplicação do Fator Frevidenciário, e com o achatamento, anos após anos, em seu já miserável salário. Aquelas frutas, ali deixadas, foram compradas por um de seus filhos, pois o seu salário mal dava para comprar os remédios contínuos que ele tinha de tomar diariamente contra a sua cardiopatia.

Os aposentados do RGPS que recebem acima de um salário mínimo, são desprezados por todos. São semelhantes àquele pobre burro da crônica, caído na Praça Quinze de Novembro, no Rio de Janeiro. Machado de Assis, acompanhado de um amigo, ao passarem por ali, narra o seguinte em sua crônica:
(…)
Vimos o burro levantar a cabeça e meio corpo. Os ossos furavam-lhe a pele, os olhos meio mortos fechavam-se de quando em quando. O infeliz cabeceava, mais tão frouxamente que parecia estar próximo do fim. Diante do animal havia algum capim espalhado, e uma lata com água. Logo, não foi abandonado inteiramente; alguma piedade houve no dono ou quem quer que é que o deixou na praça, com essa última refeição à vista. Não foi pequena ação. Se o autor dela é homem que leia crônicas, e acaso ler esta, receba daqui um aperto de mão. O burro não comeu do capim, nem bebeu da água; estava já para outros capins e outras águas, em campos mais largos e eternos”.
(…)
O burro da crônica de Machado de Assis, após trabalhar, sem tréguas, sob sol ou chuva, frio ou calor, puxando os antigos bondes de tração animal, na cidade do Rio de Janeiro, encontrava-se, agora, “aposentado” com a chegada dos bondes elétricos, e ser abandonado pelo seu novo proprietário. Pensara ele que aqueles modernos bondes seriam a sua salvação. Aposentar-se-iam com dignidade, ele e os seus companheiros de labutas. Não seriam mais chicoteados, pastariam em verdes campos; afinal, trabalharam por longos anos puxando aqueles bondes. Puro engano. Não foram aposentados de imediato. Foram vendidos a outros donos, que os colocaram para puxar carroças, continuando a trabalharem sob sol ou chuva, frio ou calor, e recebendo as mesmas pancadas. Ali na Praça Quinze, abandonado e caído, foi onde o nosso cronista Machado de Assis o encontrou.

No dia seguinte, voltando a fazer o mesmo trajeto, o cronista afirma que o pobre burro havia morrido. Partira à procura de outros capins e outras águas em campos mais largos e abertos. Também eu, ao voltar ao hospital, soube que aquele pobre aposentado do INSS havia falecido. Partira em busca de descanso para o seu corpo maltratado pelo excesso de trabalhos físicos. Trabalhos estes, que que tanto contribuíram para a grandeza do nosso país, mas sem o mínimo de reconhecimento por parte dos nossos governantes, políticos e pelos pelegos das centrais sindicais.

Que os dois, o aposentado do INSS, e o burro da crônica de Machado de Assis, descansem em paz!


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