Publicado por: mirnacavalcanti | 13 de agosto de 2012

A importância de uma antiga e longa amizade


                                                                                                                  

Dois velhos amigos, Paulo e João, conversavam em um ensolarado dia de inverno, sentados em um banco na pracinha do vilarejo.  Há décadas conheciam-se – na verdade desde uns cinco anos…  e quantas décadas já se passaram. Havia sempre assunto, pois costumavam relembrar acontecimentos ainda vívidos na memória e na alma, conversar sobre os que já haviam partido, suas brincadeiras e travessuras quando crianças, as idas ao cinema da vila aos domingos – com o dinheirinho que era para comprar balas – e, com tão pouco, eram felizes…  Essa saudade grande lhes servia de alento…   Da turminha de estudos e folguedos, o tempo foi se encarregando de levar para outras paragens, onde o tempo não mais conta. Restaram Paulo, João e… Maria.

Paulo tinha temperamento calmo, era tranqüilo. João, nem tanto. Continuava agitado como sempre fora e, se o corpo mostrava a passagem do tempo – a mente mantivera-se jovem – até jovem demais, para quem já tinha completado 72 anos. Não fora a idade e o físico, dir-se-ia  um adolescente,  pois entusiasmo não lhe faltava, as novidades lhe interessavam, lia muito e, depois que, a duras penas, aprendera a usar o computador – que considerava quintessência da tecnologia- todos os dias conectava-se  à internet e estava sempre logado nas redes sociais. Fizera muitos amigos virtuais.  Tinha até um blog, simples, é verdade, mas que ao nele escrever, sentia-se  escritor e conectado com o mundo…  E, além dessa movimentação toda – ou justamente por causa dela,  ainda acreditava  na possibilidade de um mundo melhor… modificado pelo amor.

João era solteirão e vivia só desde que sua mãe, Dona Zica,  morrera. Ele passara os  dois últimos anos de sua vida, dedicando-se totalmente a ela (era aposentado) com o carinho de um filho amoroso.  Sempre dizia: “Ela me educou, me orientou, fez com que me tornasse quem hoje sou.  É meu dever retribuir como posso,  o muito que ela  fez por mim”.  Eram companheiros, amigos  de verdade e, quando Dona Zica sentiu-se mal, fora João  que a amparara, viu seu terno sorriso enquanto fechava os olhos  e ouviu seu último suspiro, após dizer o quanto amava o filho e queria sua felicidade. Morte rápida:  ataque de coração. Tivera uma longa vida: partira deste mundo com 92 anos – e feliz, pois lúcida até o fim, tinha a companhia daquele que mais amara: seu filho, João.

Com a morte da mãe, a solidão… Tristeza e luto. Estava apenas ’existindo’, não ’vivendo’… quando , após o luto  ao qual se auto submetera, lembrara-se de que dona Zica queria-o feliz…

Lembrou-se de Maria, seu amor de infância … por quem seu coração ainda batia mais forte sempre que encontrava, ao acaso. Maria tinha ficado viúva há já um ano; era vizinha de Paulo.

Estavam a chalrear quando Maria passou por eles, cumprimentou-os e seguiu em direção à Igreja, pois era hora da novena.  Pronto! Foi o que bastou para João iniciar a falar sobre ela, a perguntar se Paulo a via com freqüência, já que aquela cuidava de seu jardim todos os dias, sempre em companhia de Tufão, um yorkshire metido a besta que latia o tempo todo.

As perguntas não paravam. Paulo a todas respondia pacientemente… Até que, lá pelas tantas, aborreceu-se e, para tentar ‘cortar’ os arroubos sentimentais do amigo, disse-lhe que ela e o marido costumavam brigar e quando tal ocorria, a voz dela, estridente,  era claramente ouvida  pelos vizinhos. Arrematou:” Não parecia um casamento feliz”.

Ah! João, com um muxoxo calou-se … Paulo, aproveitando a ‘deixa’ e para encerrar aquele longo e já aborrecido papo, levantou-se e, sério, disse-lhe: “Não gostaste da resposta? Então não me faças mais perguntas, caramba! Quase duas horas estou a ouvir-te! Se estás assim tão interessado, bate-lhe à porta e conversa com ela! Não tenho mais idade para bancar o cupido – nem tenho vontade! Até  amanhã!”

E, pela primeira vez, saiu aborrecido, resmungando e tão apressado quanto suas pernas lhe permitiam. Pensou: certamente  já havia  perdido parte da novela (Avenida Brasil).

 

Mirna Cavalcanti de Albuquerque Pinto da Cunha                                                                                                                                           Rio de Janeiro, 13 de Agosto de 2012

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