Publicado por: mirnacavalcanti | 3 de abril de 2010

Cinco Ervilhas em uma Vagem


Os  sonhos podem ser vistos através do olhar, se 'o outro' tiver sensibilidade para captá-los.

O olhar tudo pode dizer. Só o podem entender os que ouvem a voz do coração.

 

Ontem, 2 de abril, foi comemorado o aniversário de Hans Cristian Andersen. Em sua homenagem, postei o artigo Hans Christian Andersen nasceu há 205 anos, também no  Brasilwiki!( postado ontem, já teve quase 4.000 acessos!).

Sua obra é inigualável. Esta afirmação deve-se ao fato de que a sua produção literária é extensa, abrangente, notável não só pela prodigalidade, como qualidade.
Compõe-se, além de histórias infanto-juvenis, de  relatos de viagens, poemas, romances, autobiografias e também  de dramas. Infere-se, pois, que é atemporal, popular, vez que reflete sua capacidade única, principalmente através de suas poesias, de evocar emoções profundas em seus leitores, independentemente de idade, sexo ou mesmo cultura. Anderson, destarte, apesar de passado tanto tempo de sua morte, está eternizado por seus escritos.
 
Ainda em homenagem a Andersen, posto hoje:Cinco  Ervilhas na Mesma Vagem”. Apesar de, à primeira vista, parecer uma “simples” história, na verdade, faz-nos pensar, e muito, no ser humano, suas qualidades e defeitos, suas ambições e inseguranças, suas “acomodações” a situações que não pode mudar. Leva-nos, enfim, a pensar no sentido de tudo isso. Ocorre o subseqüente e automático: “qual o objetivo da vida?”… E à própria transcendentalidade do Ser. Assim, não é uma “simples” história, mas uma verdadeira “lição de vida” que pode iluminar o Caminho dos que estiverem atentos.
Mirna Cavalcanti de Albuquerque Pinto da Cunha.
 
Passemos a deliciarmo-nos com a leitura de tão belo conto.

“Numa vagem, estavam cinco ervilhas. Estavam ainda verdes e verde era também a vagem; por esta razão acreditavam que o mundo era verde; – que o leitor se considere na posição das ervilhas, e facilmente perceberia esta ilusão. Cresceu a vagem, cresciam as ervilhas, tendo sempre o cuidado de se conservarem bem alinhadas e nas respectivas distâncias.
O sol aquecia a vagem; a chuva e as gotas de orvalho a tornavam clara e transparente, e assim, durante o dia, gozavam as ervilhas uma doce claridade e durante a noite as trevas lhes favoreciam o sono. Mas, crescendo, tornaram-se sérias e cismadoras.
– Então, ficaremos sempre aqui?, disse uma delas. Muitas coisas há de haver lá fora dignas de admiração. Passaram algumas semanas e elas amareleceram.
– Agora está tudo amarelo, diziam as cinco ervilhas; muitas voltas dá o mundo.

Subitamente, sentiram uma viva comoção; um homem arrancara a vagem e a lançara num cesto com muitas outras.

– Ora, enfim, vamos ter a liberdade, disseram as ervilhas; e esperavam com impaciência o grande e venturoso momento.

– Qual de nós irá mais longe no mundo, e chegará a uma posição mais elevada? Disse a mais pequena das cinco. Em breve o saberemos.

– Seja feita a vontade do Senhor! Disse a maior, com sincera resignação.

Traz! Abriu-se a vagem: e as cinco ervilhas rolaram na mão dum rapaz.

– Oh! que belas balas para a minha espingarda! Exclamou ele, e meteu uma no tubo de lata e largou a espiral.

– Vou correr mundo, pensou a ervilha cheia de entusiasmo. E desapareceu. O rapaz introduziu a segunda no cano.

– Agora vou parar ao sol, pensou a ervilha, descrevendo a sua parábola. Que vagem tão quentinha que hei de lá ter….

As três ervilhas restantes, menos ambiciosas, assustaram-se vendo as grandes cambalhotas das suas companheiras, e deixaram-se escorregar e cair no chão; mas o menino apanhou-as também, dando lhes o mesmo destino.

– Chegou a minha vez, disse a última, cumpra-se a vontade do Senhor! E foi cair na janela duma casa pobre, antes uma choupana, numa fenda cheia de musgo e terra.

O musgo em breve cercou e envolveu o pequeno grão. Na choupana morava uma infeliz mulher que vivia de fazer recados e de pesados trabalhos. Aceitava os trabalhos mais custosos, porque era forte e corajosa e era mãe. Sua filha, uma linda criança loura, mas extremamente pálida, flutuava, havia quase um ano, entre a vida e a morte.

– Também esta vai para o céu, pensava a pobre mãe; vai juntar-se à irmãzinha. Meu Deus! Já me levastes uma, deixai-me esta, Senhor! Voltou-se para a menina e disse-lhe: “Estás tão doente, tão fraca, parece-me que não escapas, filha!”.

Chegou a primavera e, uma manhã, quando a mãe ia sair, o sol, rompendo a neve iluminou com tal intensidade a janela da choupana, que a doente olhou para lá admirada.

– Parece-me, disse ela, ver o que quer que é, a tremer, ali na janela. Que é?

A mãe abriu a janela.

– Olha a graça! Disse ela, é uma ervilha que está aqui entre o musgo; já tem umas folhinhas; como viria ela aqui parar?

– Não a arranques, mamãe, deixa e veremos se ela cresce muito…

– Não, filha, não a arranco. Queres vê-la mais de perto?

E aproximou o leito da janela, para que a filha visse melhor a planta delicada; depois abraçou-a e saiu.

À noite, assim que entrou, disse-lhe a pequena:

– Já estou melhor, fez-me bem o calor do sol, e olhe, vendo como a ervilha ali nasceu e vai crescendo, pensei que me havia de curar e que o sol e o ar me fariam bem.

– Queira Deus! Respondeu-lhe a mãe, ainda assim com bem pouca esperança.

No dia seguinte a pobrezinha rodeou a ervilha com  pequenas estacas; passados dias as hastes verdes e sarmentosas se entrelaçavam cheias de viço e frescura, e não tardou muito a aparecer a primeira flor.

– Feliz presságio! Pensou a mãe, e começou a ter também esperanças na cura da pobre criança. A doentinha falava já com mais animação; levantava-se e assentava-se sem ajuda, e olhava sempre com o maior prazer, com afeição até, a planta que revestira a janela com um cortinado de verdura. Uma semana mais tarde, podia ela já estar algumas horas fora do leito, todos os dias. Assentava-se junto da janela e aí, em companhia das flores alvas e rosadas, gozava da suavidade do ar e do calor do sol.

– Foi o bom Deus, dizia a alegre mãe, foi o bom Deus, minha filha, que fez crescer a pobre planta numa fenda cheia de musgo para que o seu aspecto alegrasse os teus olhos e nos desse a ambas coragem e esperança.

……………………………….

E as outras ervilhas? Que seria feito delas? Uma caíra num telhado e foi engolida por um pombo, e a mesma sorte tiveram as outras duas; sempre serviram para alguma coisa. A outra, a tal que desejava ir para o sol, caiu mesmo no meio da regueira, e aí ficou, na lama, cada vez mais inchada.

– Se isto continua, dizia ela, arrebentarei sem dúvida. Estou certa que nenhuma outra ervilha atingiu um tão colossal desenvolvimento; das cinco que estávamos na mesma vagem sou eu a mais notável, mas muito mais notável.

Talvez minhas irmãs tenham alcançado posições eminentes? Mas o importante é engordar.

Um dia a menina da choupana, completamente restabelecida, os olhos brilhantes

, as faces rosadas, aproximou-se da janela, elevou ao céu as mãozinhas postas e do íntimo do seu coração agradeceu a Deus o ter-lhe restituído a saúde, e o ter poupado à mãe a dor imensa de ver morrer a sua última filha; e depois inclinou o olhar sobre a planta, que tinha as folhas ainda verdes, mas cujas flores haviam já sido substituídas por formosas vagens.
– E tu, minha pobre planta, verde como a esperança e que foste para mim o primeiro sinal da proteção
 

divina, tu não tardarás a amarelecer e a secar. Mas eu não te esquecerei; colherei os teus grãos e todos os anos os teus descendentes crescerão tratados pelas minhas mãos aqui nesta janela; e as suas flores serão sempre para mim as mais encantadoras e mimosas. E a ervilha, confiada nesta promessa da inocente, regozijou-se pensando que o beneficio dela seria útil à sua posteridade.
– Seja feita a vontade do Senhor! Repetia ela.
 

Pobre ervilha como sou, a minha existência limita-se a uma estação; mas como é agradável pensar que hei de sobreviver nos filhos, e que eles serão ainda protegidos pelas recordações que eu deixar! Não será este um modo de ir longe, bem longe no mundo?

E no entretanto a regueira lá ia levando a sua água fétida e turva, murmurando:
– Cá levo a minha ervilha. Tanto engordou, tanto se saturou de lama, que se desfez em podridão. Não deixou nem um gérmen, nem uma lembrança. Serviu apenas para ajuntar alguns átomos sem nome aos que eu tenho já e que servem para alimentar a terra e os animais imundos.
Fim dos por demais ambiciosos! Querem a princípio ir para o sol e quando lhes sucede cair na lama, acham-se tão bem, tão no seu elemento que não pedem mais nada. A este respeito, as ervilhas parecem-se muito com os homens”.
 

 


Responses

  1. belo presente uma obra prima esta leitura
    parabens pela sua dedicação em enviar para seus amigos
    bjs em seu coração
    suely


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